Por que esta nota existe
Quem carrega CRI acompanha o papel por dois canais: a marcação de preço e o comunicado da securitizadora. Esta nota mostra, com dado público, que os dois chegam tarde, quando chegam, e que existe um terceiro canal, disponível a qualquer pessoa, que chega quase um ano antes.
O método está descrito de forma que você possa refazê-lo. É essa a intenção: a régua importa mais que o resultado, porque é ela que separa carência contratual legítima de inadimplemento real.
01A pergunta
O que caracteriza estresse em um CRI? Há duas respostas possíveis, e elas discordam.
A primeira é o padrão absoluto de pagamento: o papel parou de pagar, logo está estressado. É a leitura intuitiva, e é a que a maioria dos detectores usa. A segunda é o desvio do fluxo contratado: comparar o que a série pagou contra o que se comprometeu a pagar na Tabela de Amortização e Juros vigente: o termo de securitização e todos os seus aditamentos.
A diferença não é semântica. Num piloto de validação com cinco CRIs, extraindo a TAI vigente documento a documento, o padrão absoluto errou nos dois sentidos: apontou dois falsos positivos em papéis que estavam em carência contratual regular, e deixou passar um caso em que o desvio estava nos juros e não na amortização.
A comparação contra o fluxo contratado. Tudo que segue depende dessa escolha.
02De onde vem o dado
Nenhuma fonte proprietária. Tudo abaixo é público e citável.
| Fonte | O que fornece |
|---|---|
| Informes mensais de CRI da CVM | Fluxos de rendimento e amortização por série e por mês; cadastro consolidado |
| FNET | Assembleias de titulares, aditamentos e fatos relevantes: os eventos documentados e suas datas |
| Termos de securitização | A TAI contratada e seus aditamentos (portais das securitizadoras e B3) |
| Spread de emissão | Prêmio sobre a NTN-B de prazo equivalente, no primário |
| Informes mensais de FII | Carteiras dos fundos, papel a papel |
Uma restrição define a janela. Os campos de pagamento do informe mensal da CVM têm 0% de preenchimento antes de julho de 2022 e cerca de 55% depois. A janela de jul/2022 a dez/2025 não é uma escolha: é o que o dado permite.
03O funil
| Etapa | Séries |
|---|---|
| Cadastradas no universo | 7.721 |
| Com painel de fluxo reconstruído | 6.771 |
| Com ao menos 3 meses observados após o corte | 5.606 |
| Com desvio crível entre contratado e realizado | 1.837 |
A palavra que carrega peso aqui é crível.
04O critério de credibilidade do zero
Um mês zerado no informe pode significar duas coisas opostas: a série não pagou, ou a securitizadora não reportou. Confundir as duas é o erro que invalida a análise inteira.
Dois emissores não preenchem pagamentos em nenhuma das suas séries, 120 e 13 séries, respectivamente. E a intermitência acontece também dentro do mesmo emissor ao longo do tempo: uma securitizadora apresenta 98 séries com buraco de reporte em períodos específicos.
Para cada série e cada mês zerado, verificamos se aquela securitizadora estava reportando pagamentos de outras séries suas naquele mesmo mês. Se estava, o zero é informação: a série não pagou. Se não estava, o zero é ausência de reporte, e o resultado sai marcado como inconclusivo em vez de virar um desvio.
Esse critério mudou vereditos. Num dos casos do piloto, o desvio de amortização se confirmou, mas um hiato de treze meses ficou parcialmente inconclusivo, e é assim que ele está registrado.
05O achado central
Entre as 1.837 séries com desvio crível de fluxo:
| Condição | Proporção |
|---|---|
| Sem sinal de preço que sinalizasse o problema | 72,1% |
| Sem evento documentado no FNET no período | 65,4% |
| Sem nenhum dos dois | 49,0% |
Esse último grupo são 901 séries, ou 16,1% do universo observável. Pagamento fora do contratado, preço intacto, nenhuma comunicação.
O silêncio é o caso modal do estresse, não a exceção. Para quem acompanha um CRI apenas pela cotação e pelo comunicado, praticamente metade do problema é invisível.
06A antecedência
Em 635 séries existem os dois marcos: o desvio de fluxo e o evento documentado. Nelas dá para medir quem chega primeiro.
- O desvio de fluxo precede o evento documentado em 66,9% dos casos
- Mediana de antecedência: 10 meses (p25 = 6; p75 = 18; máximo = 47)
- Contra eventos severos apenas: 64,5% dos casos, mediana de 6 meses
Dois terços das vezes, o dado público já dizia o que o comunicado só diria quase um ano depois. Não é previsão: é leitura de um dado que já estava lá.
07Três consequências
O prêmio de emissão não remunera esse risco
Séries que vieram a apresentar desvio saíram com spread mediano de 4,01 p.p. sobre a NTN-B, contra 3,64 p.p. das demais. São 36 pontos-base de discriminação ex-ante: estatisticamente detectável (Mann-Whitney, p = 0,014), economicamente pouco. Pior: dentro do grupo que falhou, as séries que ficariam silenciosas foram emitidas com o menor prêmio de todos (3,18 p.p.), abaixo das que acabariam documentadas (6,16 p.p.). A seleção adversa começa na emissão, não no secundário.
O diagnóstico sobre qualidade de carteira depende da régua
Comparando o placar de 87 fundos sob as duas réguas de preço e de fluxo, a correlação de postos é 0,692. Mas é assimétrica: quatro dos cinco piores coincidem, e apenas dois dos cinco melhores. No terço central a correlação cai para 0,359 e perde significância (p = 0,061). As duas réguas concordam sobre quem está claramente mal e discordam sobre todo o resto. Os fundos que pioram sob a régua de fluxo são os que carregavam crédito interrompido sem reprecificação.
E o fenômeno dobrou em três anos
A fatia das posições de CRI em carteiras de FII com desvio de fluxo vigente saiu de 8,5% em julho de 2022 para 17% a 19% em 2025–2026. O subconjunto silencioso, sem preço e sem evento, foi de 4,7% para 6,4%. No mesmo período, o universo de fundos observados cresceu de 49 para cerca de 103.
08O que esta nota não afirma
Por princípio, declaramos onde o resultado não alcança.
- Desvio de fluxo não é default. É divergência entre o contratado e o pago. Parte se resolve; parte é renegociação legítima ainda não formalizada; parte é falha de reporte que o critério de credibilidade não conseguiu descartar.
- A cobertura é parcial. Cerca de 55% de preenchimento nos campos de pagamento após jul/2022. Séries de emissores que não reportam não entram, e isso enviesa para baixo: o problema medido é o piso, não o teto.
- A janela é curta. Três anos e meio de fluxo. Não há ciclo completo de crédito imobiliário aqui.
- Nada disto é recomendação. Não avaliamos capacidade de pagamento futura de nenhum devedor, não atribuímos rating e não sugerimos comprar ou vender papel algum.
- Não nomeamos séries nem fundos nesta nota pública. Os resultados por papel e por carteira existem na base, mas publicá-los exige um contraditório que uma nota metodológica não comporta.
09Como o argumento se encadeia
O estresse existe e é definível contratualmente (§1) → não é visível pelas fontes que o investidor de fato consulta (§5) → mas seria observável com quase um ano de antecedência em dado público (§6) → os gestores não o evitam, e o diagnóstico sobre quem é bom depende da régua escolhida (§7) → o preço de emissão não remunera esse risco (§7) → e a exposição agregada dobrou em três anos (§7).
A qualidade do reporte (§4) limita e ao mesmo tempo integra o argumento: parte do silêncio é opacidade informacional, não apenas ausência de reprecificação.
10O que estamos construindo com isso
O Clube CRI nasce deste dataset. A proposta de valor é o §6: entregar o desvio de fluxo como indicador antecedente, por papel e por carteira, junto com o extrato do que foi contratado contra o que foi pago, a precificação contra a curva e o mapa de quais fundos carregam cada papel.
Discorda do método?
Foi para isso que ele está publicado. Escreva para contato@clubecri.com.br. Contraditório metodológico é bem-vindo.
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