Nota de pesquisa · Fundo de obra em CRI · Setembro de 2026

Fundo de obra em CRI: quanto tem, quanto paga, e por que se mede errado

Lemos 3.260 termos de securitização, um por um. A leitura automática dava 67,5% das séries com fundo de obra. Foram precisas quatro correções para chegar a 51,2%, e duas delas só apareceram quando abrimos os PDFs página por página.

Levantamento próprio sobre 3.260 termos de securitização, setembro de 2026. Cada série marcada traz página, contexto e trecho do termo, com link do documento na FNET.

3.260
termos de securitização lidos, um por um
51,2%
das séries com termo têm fundo de obra
4
fontes de erro medidas na leitura automática
1,71 p.p.
de sobretaxa mediana onde há obra a performar

Uma série de home equity, crédito com garantia de imóvel pronto, aparecia marcada como tendo fundo de obra. Obra a performar não deveria existir ali. Fomos ver onde a expressão estava: página 351 de 379, dentro de um formulário de registro da ANBIMA, numa tabela em que toda garantia possível vem impressa como um item, com a coluna de resposta inteiramente em branco.

A operação não havia declarado garantia nenhuma. Ainda assim o texto extraído do PDF continha as palavras "Fundo de Obras", porque o rótulo está impresso no formulário. Quem lê o documento inteiro procurando a expressão lê ausência como presença.

Esse não foi o único problema. Lemos os 3.260 termos de securitização da base e precisamos de quatro correções para chegar a um número em que confiamos. A primeira leitura dava 67,5%. O número final é 51,2%. Esta nota conta o caminho, porque é o caminho que explica por que os números publicados sobre fundo de obra divergem tanto.

01Por que isso é difícil de medir

O termo de securitização tem de 150 a 400 páginas. Buscar "fundo de obras" nele parece trivial. Não é, e por quatro motivos que medimos um a um.

O documento pode não ser o termo

Dez por cento das séries tinham, como documento indexado, um aditamento e não o termo original. Aditamento não repete as definições da operação: altera um ponto e remete ao resto. Essas séries marcavam fundo de obra em 3,4%, contra 49,3% das demais. Não porque não tivessem obra, mas porque o documento lido não falava do assunto.

Recuperamos 103 termos nos portais das securitizadoras e 32 pela FNET. As 84 séries que seguem sem termo estão declaradas como tal e não entram em nenhuma conta.

O formulário de garantias da ANBIMA

É o caso que abre esta nota, e foi a descoberta que mais nos surpreendeu. No fim de muitos termos há um formulário de registro em que toda garantia possível aparece impressa: alienação fiduciária, cessão fiduciária, penhor, hipoteca, fundo de reserva, fundo de obras, fiança, aval, subordinação, sobrecolaterização. A operação marca as que existem. O extrator de texto lê os rótulos, marcados ou não.

O anexo do agente fiduciário

Também no fim do termo, o agente fiduciário lista as outras emissões em que atua, com volume, vencimento, taxa, garantias e status de cada uma. Está presente em 34% dos termos. Num deles a linha lida dizia "Status: INADIMPLENTE" e "Relatório de Medição de Obras dos imóveis do Empreendimento Alvo", tudo de outra operação, dentro deste documento.

O agente de monitoramento

A quarta fonte apareceu quando fomos verificar um resultado que não fazia sentido: metade das séries de home equity estava marcada como tendo obra. O motivo era a expressão "agente de monitoramento", que nessas operações designa o servicer que acompanha a carteira de recebíveis, não um agente de medição de obra. Noventa e sete séries da base se seguravam só nessa palavra.

Uma quinta fonte apareceu depois, conferindo os PDFs à mão: em algumas séries o anexo do agente fiduciário vem redigido como texto corrido, sem grade, e o nosso classificador lia isso como cláusula. São 453 linhas de evidência em 182 séries, 2,6% das evidências que classificamos como boas. Está descontada do número final, e fica declarada aqui porque é o tipo de coisa que costuma não ser declarada.

02O teste que valida o método

Um filtro só presta se derruba o que não deveria existir e deixa em pé o que deveria. Testamos contra a classificação de segmento de uma base independente, na coluna que aquela base usa no seu próprio modelo econométrico.

Segmento do lastroSériesLeitura do documento inteiroDepois das correções
Hotel1888,9%88,9%
Loteamento13085,4%66,2%
Incorporação65879,5%65,3%
Energia e infraestrutura5967,8%49,2%
Renda urbana11656,9%29,3%
Renda imobiliária21155,9%27,5%
Crédito pulverizado3348,5%18,2%
Home equity7250,0%2,8%

Hotel, loteamento e incorporação, onde a obra é a razão de ser do papel, sustentam o número. Home equity desmonta. As duas séries de home equity que sobraram foram conferidas à mão: uma tem "fundo de obras" em cláusula, na página 94 de 179; a outra tem relatório de medição dentro da cláusula de destinação de recursos, com técnico responsável pelo imóvel alvo. Existem, e são raras.

O segmento dessa base independente converge 94% com as fontes públicas que a alimentam, então o que sobrou em home equity é da mesma ordem do erro de classificação do próprio gabarito. Não afirmamos que são exatamente duas: afirmamos que é perto de zero.

03Quanto tem obra, por safra

Ano de emissãoSéries com termo lidoCom fundo de obra
202018839,4%
202147848,5%
202255255,4%
202344248,4%
202462655,4%
202541648,8%
202619762,4%

Vale em 2020, recuperação a partir de 2021 e patamar perto de metade da emissão desde então. A curva acompanha o ciclo de lançamentos. Se fosse ruído de leitura, seria plana. O denominador são as séries cujo termo nós lemos: série sem termo não entra nem como tem nem como não tem.

04Quanto o mercado cobra pela obra

Spread sobre a curva na data de emissão: para os indexados ao IPCA, a taxa de emissão menos a NTN-B interpolada flat forward pelo prazo em dias úteis; para os pós-fixados em DI, o spread contratado.

Marcação usadaCom obra / semDiferença de medianaDiferença de média
leitura do documento inteiro1.430 / 704+1,73 p.p.+1,32 p.p.
depois de duas correções1.132 / 1.002+1,70 p.p.+1,41 p.p.
depois das quatro1.081 / 1.053+1,71 p.p.+1,53 p.p.

O prêmio sobe a cada rodada de limpeza. É contraintuitivo e tem explicação direta: ao marcar como obra séries que não têm obra, a leitura suja jogava para dentro do grupo tratado papéis que precificam como o grupo de controle. A contaminação estava diluindo o sinal, não fabricando.

O efeito sobrevive quando se exige evidência em cláusula operativa, deixando de fora as séries marcadas apenas pelo bloco de definições: +1,73 p.p. de mediana. E as séries marcadas só por definição precificam praticamente igual, +1,70 p.p., o que diz que definição não é evidência de segunda classe. Separando por indexador, IPCA +1,99 p.p. e CDI +1,43 p.p.

05Um achado que não sobreviveu

Uma rodada anterior mostrava que, entre as séries com fundo de obra, as que contratam seguro garantia precificavam meio ponto mais apertado. O achado não resiste ao filtro: a marcação de seguro garantia caía de 12,0% para 6,1%, ou seja, metade era falso positivo do mesmo formulário de garantias. Na base limpa a diferença vira 0,02 p.p. de mediana, com n de 169 contra 1.965.

Registramos aqui porque publicar o número e depois corrigi-lo em silêncio seria pior.

06O que esta nota não afirma

07O que fica disponível

Cada série marcada carrega, na sua ficha no mapa de posições, a página do termo, o contexto em que a expressão aparece, cláusula ou definição, o trecho literal em volta e o link do documento na FNET. Dá para conferir qualquer marcação sem acreditar em nós.

É essa a ideia, e ela vale para tudo que publicamos: não pedir confiança, e sim mostrar de onde veio.