Nota de pesquisa · Recuperação judicial e CRI · Setembro de 2026

Recuperação judicial do devedor não é default do CRI

Quando o devedor, o garantidor ou o inquilino pede recuperação judicial, o papel não necessariamente sofre. Depende de quem é dono do imóvel, de como a garantia foi constituída e de quem realmente assinou a obrigação. Sessenta e sete séries, seis desfechos diferentes.

Levantamento próprio sobre base de 4.391 séries de CRI, setembro de 2026. Fonte cadastral da CVM e da Junta Comercial, rol de garantias assinado pelo agente fiduciário e leitura de termo. Apenas fonte pública.

67
séries de CRI ligadas a empresa em recuperação ou falência
9,74 bi
R$ emitidos no conjunto
29
séries em que o fluxo de pagamento foi de fato afetado
22
séries em que o evento não toca o crédito

Um CRI tem a Tellus Properties como devedora e o Grupo Pão de Açúcar pagando o aluguel do imóvel. O GPA entra em recuperação extrajudicial. A pergunta natural de quem carrega o papel é se ele quebrou.

Não quebrou. E o motivo é simples quando se olha a estrutura em vez do nome: o GPA não deve esse CRI. Ele é o inquilino. O imóvel é do devedor, está alienado fiduciariamente aos titulares, e se o aluguel parar o que responde é o imóvel, não o caixa do GPA.

Esse caso não é exceção. Levantamos todas as séries da base ligadas a uma empresa em recuperação judicial, recuperação extrajudicial ou falência. São 67, com R$ 9,74 bilhões emitidos e R$ 4,25 bilhões de saldo em aberto. Os desfechos são tão diferentes entre si que tratá-los pelo mesmo rótulo é o erro. Esta nota separa os casos e mostra o que decide cada um.

01O vocabulário, em três regimes distintos

As três palavras aparecem juntas nas manchetes e significam coisas bem diferentes para quem tem crédito contra a empresa.

RegimeO que éO que muda para o credor
Recuperação judicialProcesso em juízo, previsto na Lei 11.101/2005, em que a empresa busca reorganizar suas dívidas para continuar operando. Passa por pedido, deferimento do processamento, apresentação de plano, assembleia de credores, concessão e, anos depois, encerramento.Os créditos sujeitos ficam suspensos e passam a ser pagos nas condições do plano aprovado, não nas do contrato original.
Recuperação extrajudicialA empresa negocia o plano diretamente com parte dos credores e leva o acordo para homologação judicial. É mais rápida e alcança só as classes que o plano define.Quem está na classe abrangida fica preso ao plano homologado, mesmo sem ter votado a favor.
FalênciaA empresa deixa de operar e o patrimônio é liquidado para pagar credores em ordem legal.Não há mais reorganização: o que existe é a fila de recebimento sobre o que a liquidação produzir.

Um marco não implica o outro. Pedido não é deferimento, plano apresentado não é plano homologado, e recuperação encerrada não prova que as parcelas futuras foram pagas. Esta nota não classifica em que fase cada empresa está hoje, porque isso exige consulta processual que não fizemos.

02Concursal e extraconcursal: a distinção que decide o caso

Quando uma empresa entra em recuperação judicial, seus credores se dividem em dois mundos.

Credor concursal é o que se submete ao processo. Ele entra na fila, é classificado por classe, vota o plano e recebe nas condições que o plano estabelecer, que normalmente incluem deságio, carência e prazo alongado. Dentro do concurso há ordem de preferência: crédito trabalhista vem primeiro, depois o crédito com garantia real, como a hipoteca, e depois o quirografário, que é o crédito sem garantia nenhuma. Quirografário é a pior posição: recebe depois de todo mundo, com o que sobrar, e é aí que o risco de não receber o principal integral deixa de ser teórico.

Credor extraconcursal é o que não se submete. O artigo 49, parágrafo 3º, da Lei 11.101/2005 retira dos efeitos da recuperação o credor titular da posição de proprietário fiduciário de bens móveis ou imóveis, entre outros. Quem tem alienação fiduciária não é exatamente credor de uma dívida: é dono do bem, em caráter resolúvel, até que a dívida seja paga. O bem não integra o patrimônio da recuperanda, então não entra na negociação com os demais credores.

É essa a posição desejável para o investidor de CRI, e é por isso que a alienação fiduciária virou o padrão do mercado de crédito imobiliário. Ela faz as duas coisas ao mesmo tempo: mantém o titular fora da fila e preserva a garantia registrada em matrícula, que continua respondendo pela dívida independentemente do que aconteça com o restante do passivo da empresa.

Garantia constituídaPosiçãoEfeito prático
Alienação fiduciária de imóvelExtraconcursalFora do concurso. O imóvel responde, e a execução segue seu rito próprio.
Alienação fiduciária de quotas, ações ou recebíveisExtraconcursalTambém fora do concurso, porque a lei fala em bens móveis ou imóveis. Mas o que se executa é participação ou fluxo, não um imóvel.
HipotecaConcursal, com garantia realEntra na fila, com preferência sobre os quirografários e limitada ao valor do bem.
Fiança, aval, coobrigaçãoNão altera a posiçãoÉ garantia de terceiro. Vale contra quem garantiu, não muda a classe do crédito contra o devedor.
Nenhuma garantia realQuirografárioÚltima classe do concurso, com risco efetivo sobre o principal.

Uma ressalva que a própria base nos obrigou a escrever: estar fora do concurso não diz quanto a garantia vale. Alienação fiduciária das quotas da própria recuperanda é extraconcursal no papel e pode não valer nada na prática, porque o que se executa é a participação numa empresa que está em recuperação. Classificação jurídica e avaliação econômica são leituras diferentes, e misturá-las produz falsa tranquilidade.

03O nome do CRI não é o risco do CRI

Operações de crédito imobiliário costumam ser conhecidas pelo nome mais famoso que aparece nelas, que quase nunca é o nome de quem responde pelo pagamento. Na base, o mesmo Grupo Pão de Açúcar aparece em três arranjos completamente diferentes, e o risco de cada um é outro.

ArranjoDevedor no cadastroQuem de fato respondePapel do GPA
Sale and leaseback via FII
17 séries
GPAO fundo proprietário do imóvel, com o imóvel em garantiaLocatário
Operação com garantidor bancário
5 séries
GPABanco Safra, como garantidorLocatário
Operação com FII devedor
2 séries
Tellus PropertiesO fundo, dono do imóvelGarantidor

No primeiro e no segundo arranjo, o cadastro registra o GPA como devedor porque é dele que sai o dinheiro do aluguel. Mas a obrigação de pagar o CRI é do fundo, e num dos casos há ainda um banco de primeira linha como garantidor. Uma recuperação do inquilino nessas estruturas é um problema de vacância, que se resolve relocando o imóvel, e não um problema de insolvência do devedor.

No terceiro arranjo a posição se inverte: a Tellus é a devedora e o GPA aparece como garantidor. Aqui a recuperação do GPA afeta o valor da garantia acessória, não a posição do crédito principal, que continua sendo contra o fundo.

O mesmo padrão aparece fora do GPA. Kadima, RioPet, Ober, Isdralit e Fragnani também figuram como locatários em operações cujo devedor é outro. Somando tudo, 22 das 67 séries têm como empresa em recuperação alguém que não deve o CRI.

É por isso que a ficha de série do Clube CRI escreve "locatário do imóvel em recuperação judicial", e não "devedor em recuperação judicial", e acrescenta na mesma tela que o aluguel é a fonte primária mas o devedor formal e a garantia do imóvel respondem pelo crédito. São frases diferentes porque são fatos diferentes.

04Os seis desfechos que a base encontrou

1. O evento não toca o crédito. 22 séries, mais de R$ 3 bilhões emitidos. O locatário entra em recuperação, o devedor continua pagando, o imóvel segue alienado. A pergunta que resolve o caso é uma só: quem é o dono do imóvel.

2. O CRI deixa de existir como CRI. O caso da Via S.A., do Grupo Casas Bahia. Plano de recuperação extrajudicial homologado em 24/06/2024. Em assembleia de 24/07/2025 os titulares aprovaram a liquidação do patrimônio separado por dação em pagamento, e em 31/10/2025 os CRI foram convertidos automaticamente na B3 em debêntures novas, com desconto de 2,30% para despesas não pagas pela devedora. De R$ 428,5 milhões de principal, R$ 418,6 milhões após o desconto.

O investidor não recebeu dinheiro. Recebeu papel reestruturado do próprio devedor em recuperação. E o detalhe que fecha o raciocínio está no termo de securitização dessa operação, cláusula 2.5.3: "as CCI foram emitidas sem garantia real imobiliária". Credor extraconcursal não entra em plano de recuperação. Esse entrou porque não era. Em 16/08/2026 a Casas Bahia protocolou pedido de recuperação judicial, agora na esfera judicial.

3. Vencimento antecipado automático. O caso da Maxlog, do Grupo Max. O fato relevante da securitizadora, de 01/06/2026, informa o ajuizamento e o deferimento do processamento da recuperação judicial na 1ª Vara Cível Especializada em Recuperação Judicial e Falência de Cuiabá. A cláusula 6.1.1 das notas comerciais faz do pedido um evento de resgate antecipado automático, sem depender de assembleia. O mesmo aconteceu com o Novo Mundo. Aqui a recuperação não reduz o crédito: antecipa a cobrança dele, e o que vem depois depende inteiramente da garantia.

4. Garantia real que funciona. O caso da SouthRock, operadora do Starbucks no Brasil. Devedora em recuperação judicial, fluxo quebrado, e o termo lista alienação fiduciária de imóvel, alienação fiduciária de cotas de um FII listado, alienação fiduciária de ações, fiança e fundo de reserva. Propriedade fiduciária fica fora dos efeitos da recuperação. O titular não entra na fila, e a garantia inclui um ativo com preço de mercado observável.

5. Garantia que existe mas não é sobre o imóvel. Gramado Parks e Brasil Parques, juntos 18 séries e R$ 4,7 bilhões emitidos. O rol assinado pelo agente fiduciário traz fiança, cessão fiduciária de créditos e alienação fiduciária de quotas e ações. Não traz garantia sobre imóvel. Juridicamente o titular continua fora do concurso, pelo mesmo artigo 49 §3º. Na prática, é aqui que a ressalva da seção 02 pesa mais.

6. Crédito quirografário. Nove séries em que não localizamos garantia real, duas delas com o fluxo já quebrado. É o cenário que o mercado descreve quando fala de recuperação judicial: posição não privilegiada, concorrendo com os demais credores da classe, com risco efetivo sobre o principal.

05E o desfecho mais frequente: nada acontece

Das 67 séries, 22 não são imputáveis ao evento e outras 16 têm devedor em recuperação sem impacto medido no fluxo. Há empresa formalmente em recuperação judicial pagando o CRI em dia, como a João Fortes Engenharia e a Calçada Empreendimentos. Patrimônio separado, regime fiduciário e garantia bem constituída existem exatamente para isso.

Status judicial e status de pagamento são duas dimensões independentes, e é assim que a base as trata: uma régua diz em que situação está a empresa, outra diz o que o dinheiro fez, e nenhuma das duas se deduz da outra.

06Quatro perguntas que separam um caso do outro

  1. Quem está em recuperação é o devedor do lastro? Se for o locatário, o fornecedor ou uma empresa do grupo que não assinou a obrigação, o crédito não passa por ali.
  2. Quem é o dono do imóvel? Se o imóvel é do devedor e está alienado fiduciariamente aos titulares, o CRI tem para onde ir.
  3. Que garantia foi efetivamente constituída, e sobre o quê? É a pergunta que define concursal ou extraconcursal, e a resposta está no contrato e na matrícula, não no rótulo da operação.
  4. O fluxo mudou de fato? Atraso, repactuação, carência e vencimento antecipado são eventos distintos, com datas próprias, e nenhum se presume a partir do evento judicial.

07Como isso é medido, porque o caminho fácil dá errado

Procurar a expressão "recuperação judicial" nos documentos publicados pela securitizadora parece o caminho natural. Não é.

Testamos. A expressão aparece em 1.620 séries do nosso universo. Cruzando com fonte cadastral, 39 têm vínculo real com uma empresa em recuperação. O resto é a cláusula de vencimento antecipado do próprio termo, que prevê a hipótese de o devedor pedir recuperação algum dia. É hipótese contratual, não evento. Em duas séries chegamos a contar 56 e 95 menções à expressão sem um único fato consumado atrás delas.

Por isso o Clube CRI carimba recuperação por fonte cadastral: o campo de situação do emissor no cadastro de companhias abertas da CVM, a razão social registrada na Junta Comercial, e leitura conferida de documento quando nenhuma das duas alcança. Menção em documento entra como fila de leitura, nunca como rótulo.

E a garantia vem do rol que o agente fiduciário assina no anexo dos aditamentos de termo, uma tabela série a série. Quando confrontamos esse rol com a leitura solta do termo, os dois discordaram em 106 de 214 séries em que ambos existiam. Metade. Por isso a ficha diz qual das duas fontes usou, e marca como indício, e não como fato, quando tem apenas a segunda.

08O que esta nota não afirma