Nota de caso · Grupo STX · Setembro de 2026

O CRI, a garantia e a fila: o que o caso STX ensina sobre registro e insolvência

Vinte matrículas lidas ato a ato, uma recuperação judicial de R$ 615 milhões, duas securitizadoras arroladas como credoras concursais e um leilão sem lance. O caso mostra por que a data que importa não é a da emissão, é a do registro da garantia.

Fontes: certidões de matrícula, autos do TJSP e do TJRJ, FNET, dados abertos da CVM, edital de leilão e site da administradora judicial. Posição em 16/09/2026.

615 mi
R$ de passivo na 1ª lista de credores, 1.552 credores
1.077
pessoas físicas na classe quirografária, R$ 350,6 mi
24,3 mi
R$ de CRI emitidos, 4% do passivo, a única parte auditável
0
registros de patrimônio de afetação em 18 matrículas de hotéis

01Antes do caso: a regra que vale para todo CRI

A pergunta que mais recebo de investidor é sempre a mesma: se a devedora quebrar, eu perco? A resposta depende de três coisas: qual procedimento foi aberto, qual garantia foi contratada, e se ela chegou a ser registrada.

Recuperação judicial

49 §3ºFica fora do concurso o titular de propriedade fiduciária de bem móvel ou imóvel, o cessionário fiduciário de recebíveis, o arrendador mercantil e o promitente vendedor com cláusula de irrevogabilidade. Prevalecem a propriedade e as condições contratuais.
41, IIHipoteca é concursal. Entra na classe II e só até o valor do bem; o que exceder vira quirografário. O plano não suprime garantia real sem anuência do titular (50 §1º).
49 §1ºAval e fiança seguem exigíveis contra o coobrigado (Súmula 581 do STJ). Em muitos CRIs é a garantia que sobra viva.

Extrajudicial, falência e afetação

161 a 167Na recuperação extrajudicial não há stay amplo e a lei proíbe incluir no plano os créditos do 49 §3º e §4º. Mas o plano homologado arrasta o minoritário da mesma espécie.
falênciaO bem alienado fiduciariamente não integra a massa: restituição ou execução da Lei 9.514. Garantia real não fiduciária entra na ordem do art. 83, depois do trabalhista.
31-APatrimônio de afetação (Lei 10.931) não se comunica com o incorporador nem é atingido pela falência. É a proteção mais forte que existe, e só existe se estiver na matrícula.

A regra que resume tudo

Extraconcursal não é adjetivo, é consequência de um registro. A data que importa não é a da emissão, é a do registro da garantia. Entre uma e outra, o investidor é quirografário, por mais que o material de venda diga o contrário.

02O grupo e as duas emissões

STX Desenvolvimento Imobiliário S.A., Rio de Janeiro, constituída em 2008, capital de R$ 42,2 milhões. Acima dela, a ST Participações, holding com capital social de R$ 61 mil. Hotelaria de bandeira em São Paulo e no Rio. O site institucional exibe um único empreendimento, o Hilton Barra da Tijuca, que as fontes independentes atribuem à Carvalho Hosken Hotelaria. O que o registro documenta como obra entregue pelo grupo é o Port Corporate Tower, edifício comercial no Caju, habite-se em 2014. Dos seis hotéis que captaram R$ 481,8 milhões em contratos de investimento coletivo na CVM entre 2014 e 2020, nenhum foi concluído.

Base, 41ª sérieForte, 309ª e 310ª
Código22A089653319K0175216
VolumeR$ 12.546.000R$ 9.440.000 e R$ 2.360.000
TaxaIPCA + 14% a.a.IPCA + 11,32% e 18% a.a.
Emissão / vencimento03/01/2022 / 18/01/2024debênture lastro vencia em 20/11/2022
DevedoraSPE STX 37, hoje SPE Hotel Vila MarianaSPE STX 16, Soft Inn Senador Queirós
FiadoresMarcelo Conde, ST Participações, STX Desenvolvimento, STI GestãoMarcelo Conde
Fundos detentoresVSLH11 e HCTR11HABT11
Total emitidoR$ 24,3 milhões

03O defeito: a garantia chegou depois

A emissão de R$ 12.546.000 é garantida por imóveis em dois estados e duas SPEs distintas. As matrículas mostram quando cada uma entrou.

EventoData
Emissão das debêntures03/01/2022
2º aditamento ao instrumento de alienação fiduciária22/11/2023
Registro da AF no 2º RI do Rio, dez unidades do Days Inn Rio Lapa, matrículas 102.679 e 102.75829/12/2023
Vencimento das debêntures18/01/2024
Registro da AF no 14º RI de São Paulo, imóvel da Rua Afonso Celso 4, matrícula 91.60226/06/2024

Quem comprou o papel em janeiro de 2022 carregou vinte e três meses sem garantia real registrada sobre os imóveis do Rio, e vinte e nove meses sem garantia sobre o imóvel de São Paulo. A parcela paulista entrou na matrícula cinco meses depois do papel vencer. E os valores contratados são pequenos: R$ 3.000.000 de valor de leilão para as dez unidades do Rio, R$ 2.080.000 em São Paulo, declarados como 16,58% da dívida. Somados, R$ 5,08 milhões para uma emissão de R$ 12,5 milhões.

04Nenhum patrimônio de afetação, e quem já estava na frente

Foram lidas vinte matrículas em oito cartórios, ato a ato. Nas dezoito dos hotéis, nenhuma traz registro de patrimônio de afetação. No Soft Inn, o memorial de incorporação declara expressamente que não haverá afetação. No Perdizes, a incorporação de 349 unidades hoteleiras foi registrada em 2020 e as unidades nunca foram individualizadas nem há uma única promessa de compra e venda averbada. No terreno da Avenida Ascendino Reis, onde seria o MOTTO by Hilton, não há sequer registro de incorporação: um único registro, a alienação fiduciária à Caixa de 2022 por R$ 14,5 milhões, e dezessete averbações de ações e penhoras.

Days Inn Rio Lapa · matrículas 102.679 e 102.758

Base Securitizadora, AF. R-23, 29/12/2023, valor de leilão R$ 3 mi para as dez unidades.
BHG, operadora hoteleira, penhora dos direitos do fiduciante. Termo de 03/05/2024, 29ª Vara Cível do Rio, R$ 13.543.201,75, mais que a emissão inteira. Multa por má-fé à SPE em 18/04/2024; AREsp pendente no STJ.
Indisponibilidade CNIB, 19/06/2026.

Pinheiros · matrícula 25.565

2019AF aos debenturistas, Vórtx DTVM como agente fiduciário, debêntures de R$ 8 mi a 15,25% a.a.
2024Vórtx retirada da qualidade de agente fiduciário por acórdão (AI 2188845-16.2022), substituída pelo Royal Bank FIDC, que passa a ser o credor fiduciário. Fato raro.
2026Cerca de 48 averbações, quase todas penhoras de pessoas físicas, e duas indisponibilidades.

O Royal Bank FIDC, credor fiduciário de Pinheiros, é o maior credor da classe II da recuperação, R$ 57 milhões. Nenhuma dessas posições aparece no termo de securitização.

05O teste de mercado: o leilão deserto

Execução de título extrajudicial na 24ª Vara Cível do Foro Central de São Paulo, débito de R$ 958.982,94, dois lotes.

Rua dos Pinheiros 733, 646 m²Av. Ascendino Reis, 1.049 m²
Avaliação, março de 2026R$ 8.100.000R$ 17.350.000
1ª praça, 03/08/2026R$ 8.297.774,16R$ 17.773.627,36
2ª praça, 25/08/2026R$ 4.978.664,50R$ 10.664.176,42
Resultadosem lancessem lances

Dois terrenos bem localizados em São Paulo, R$ 25,45 milhões de avaliação, 40% de desconto na segunda praça. Dez interessados se habilitaram no lote de Pinheiros, pagaram caução, abriram a matrícula e não deram lance. Não é falta de liquidez do mercado. É leitura de risco.

06A recuperação judicial, e a resposta

Processo 4077621-88.2026.8.26.0100, 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo. Pedido em 08/07/2026, processamento deferido em 27/08/2026, stay de 150 dias, administradora Vivante. Consolidação substancial pelo art. 69-J: doze empresas tratadas como patrimônio único.

ClasseCredoresValor
I, trabalhista36R$ 122.312,38
II, garantia real18R$ 130.767.628,50
III, quirografário (1.077 pessoas físicas, R$ 350,6 mi)1.385R$ 479.844.458,25
IV, ME e EPP113R$ 4.293.673,18
Total1.552R$ 615.028.072,31

E a resposta à pergunta que abre esta nota está em duas linhas da 1ª lista de credores:

Como as securitizadoras foram arroladas

Base Securitizadora, classe II, R$ 4.133.783,85. Forte Securitizadora, classe II, R$ 2.745.147,62. Concursais, com garantia real limitada ao bem pelo art. 41, II, e não extraconcursais do art. 49 §3º. Um terço e um quarto do emitido. Os R$ 4,13 milhões da Base batem com a soma dos valores de leilão contratados nas matrículas.

A 1ª lista é a do devedor, consolidada pela administradora judicial. As securitizadoras podem impugnar e pedir a exclusão como extraconcursais. O ponto não muda: tiveram que brigar por uma posição que o material de venda tratava como automática. Base e Forte somadas são 5,3% da classe II e 1,1% do passivo total; a classe II é dominada por FIDCs, securitizadoras, fomento e bancos médios, com a Caixa como único banco grande.

07Por que os imóveis ficaram indisponíveis

Cinco das matrículas lidas trazem, em junho de 2026, ordem de indisponibilidade expedida pelo gabinete do Ministro Alexandre de Moraes, protocolada pela CNIB em 27/05/2026. A origem é a Operação Exfil, deflagrada pela Polícia Federal em 01/04/2026 no âmbito da Pet 15.256 do STF, que apura acessos irregulares a sistemas da Receita Federal. O presidente do grupo é apontado como investigado, teve prisão preventiva decretada e é considerado foragido; a defesa nega responsabilidade e arguiu o impedimento do relator. É investigação em curso, sem condenação.

Registro isso por uma razão técnica: sem essa informação o leitor não entende por que os imóveis ficaram indisponíveis nem por que o leilão de agosto ficou travado. E registro o que ela não explica: a insolvência do grupo é anterior e independente. O primeiro ilícito formalmente reconhecido é de 2019, na CVM. O vencimento antecipado do CRI é de janeiro de 2024. A penhora da operadora hoteleira é de maio de 2024. As execuções de investidores correm desde 2022. Quem ler este caso como uma história de polícia vai tirar a lição errada. A lição está nas datas de registro das garantias, e elas são todas anteriores.

08O que esse caso ensina

09Por que ninguém noticiou

Em consulta feita em 15/09/2026, não há matéria em Valor, Folha, Estadão ou Globo sobre a recuperação judicial deferida em agosto. A investigação criminal do presidente do grupo foi noticiada amplamente em abril. Os R$ 615 milhões de passivo e os 1.077 investidores pessoa física não foram. A explicação é estrutural: nada disso está em fato relevante nem em portal de notícias. Está espalhado entre matrícula, central de indisponibilidade, e-SAJ, portal do TJRJ, STJ, FNET, edital de leiloeiro e site de administrador judicial. Cada dado em um silo. Só aparece para quem abre a matrícula e lê ato a ato. É por isso que este projeto existe.

Dossiê completo, ativo por ativo. Os nove empreendimentos do grupo, cada um com SPE, cartório, matrículas lidas e o que cada uma contém, cadeia de gravames em ordem de registro, processos concorrentes sobre o ativo e situação atual. Mais o mapa societário, as seis ofertas na CVM, a classe II inteira da recuperação, a tabela dos doze processos e a cronologia de 2008 a 2026. Todo o material é público e foi obtido mediante consulta; o dossiê poupa as consultas.

Obter o dossiê

Fontes públicas: matrículas 95.047, 105.575, 105.657, 105.667 e 105.689 do 5º RI de São Paulo; 58.946, 62.551, 134.020, 135.595 e 135.597 do 2º RI de São Paulo; 91.602, 91.604, 123.568 e 241.728 do 14º RI de São Paulo; 25.565 do 10º RI de São Paulo; 102.679 e 102.758 do 2º RI do Rio de Janeiro; 43.212 do 3º RI do Rio de Janeiro; 55.286 do 4º RI de São Gonçalo; 13.205, 13.211 e registro auxiliar 302 do Ofício Único de Armação dos Búzios. Portal de Dados Abertos da CVM. Termos de securitização e aditamentos no FNET. Autos 1005463-23.2025.8.26.0100, 1178208-43.2024.8.26.0100 e 4077621-88.2026.8.26.0100 do TJSP; 0092079-87.2023.8.19.0001 do TJRJ. Edital de leilão ML34151. Decisão de deferimento e 1ª lista de credores publicadas pela administradora judicial. Processo CVM SEI 19957.002237/2020-14. Sobre a Operação Exfil, comunicado do STF e noticiário de 01/04 e 21/07/2026. Esta nota é informativa e não constitui parecer jurídico, recomendação de investimento ou imputação de conduta a qualquer pessoa. Correções documentadas são bem-vindas e serão incorporadas.

O mesmo método, aplicado à sua carteira

O Clube CRI reconstrói fluxo contratado, saldo, garantia e cadência de assembleia de cada série a partir de fonte pública. Peça acesso ao mapa e receba as próximas notas de caso.

Solicitar acesso

Veja também as outras notas de caso em clubecri.com.br/casos.